Título
Do outro lado da rua: escuta ativa e produção de memória sônica no patrimônio cultural religioso
Palavras-chave
Paisagens sonoras; Memória acústica; Contemporaneidade; Fluxo; Intersemiose; Espaço; Efeitos de fronteira; Escuta ativa
Introdução/Justificativa
Esta proposta de Plano de Trabalho foi elaborada no contexto do Programa Redes para Internacionalização Institucional – CAPES-Global.Edu/Rede Conecta Mundi. O programa de mobilidade internacional envolve a Unesp, UEA, UNEB, UFS e UNIOESTE tem por finalidade oferecer bolsa para realização de treinamentos e capacitações técnicas, científicas ou pedagógicas de discentes de pós-graduação e profissionais vinculados a instituições integrantes das redes CAPES-Global.edu, objetivando o aperfeiçoamento individual e o fortalecimento institucional por meio da qualificação de recursos humanos de diversos níveis acadêmicos atuantes em instituições brasileiras nas áreas de ciência, tecnologia e inovação.
Interessa-nos a possibilidade de desenvolver parcerias técnicas internacionais e a difusão de conhecimentos e especialidades no campo da pesquisa e documentação do fenômeno religioso, incidindo diretamente na linha temática “Educação, Linguagem, Arte e Cultura para a Construção de uma Sociedade Plural”.
Nesta oportunidade, apresentamos o projeto “Trocas, fluxos e circulações: Ritos contemporâneos”, um projeto norteador que foi elaborado com o objetivo de articular estudos e pesquisas na interface das áreas de Ciências da Religião, Antropologia e Design, com especial interesse na percepção do sistema de prestações totais nas práticas socioculturais contemporâneas. Este projeto norteador tem como ponto de corte a percepção de percursos analíticos entre sujeito e estrutura social (ritos, eficácia simbólica, experiência, linguagem, mobilidade e produção de territórios, interseccionalidades e efeitos de fronteira) e particularidades dos seus produtos sociais contemporâneos (narrativas, performances, construções estéticas, mercado, consumo e formas de circulação).
Desde que R. Murray Schafer (2011) aclarou o conceito de paisagem sonora (soundscape), ainda na década de 1960, a percepção auditiva passou a ter um papel crescentemente decisivo na compreensão da realidade. À época, no campo dos estudos da cultura, a emergente Antropologia Audiovisual se constituía a partir de desafios que buscavam conciliar a prática etnográfica, o aporte de recursos audiovisuais e o alinhamento das perspectivas êmico-éticas. O passar dos anos trouxe um amadurecimento na relação entre a produção etnológica e os meios expressivos da imagem e do som, sobretudo em torno do fenômeno religioso.
Atualmente, o conceito de “paisagem sonora” (soundscape) define todo o universo sonoro que percebemos. Esta se caracteriza pela composição dos diferentes sons que emergem em um determinado ambiente, independentemente de serem um som de origem natural, humana, industrial ou tecnológica. A paisagem sonora afasta-se da chamada “acústica ambiental” (estudos sobre o controle dos ruídos) e tem como objetivo compreender os contextos de geração, percepção e fruição dos diversos sons na experiência de grupos humanos. Para além da percepção de uma mera ecologia acústica, a escuta ativa envolvida no processo etnográfico aprofunda a sensibilidade ao meio e retira do sentido da audição sua mais acurada capacidade cognitiva.
Neste contexto, a percepção e registro da vida cotidiana ganha um especial destaque como objeto de pesquisa. Tanto pelas aplicações teórico-metodológicas, quanto pela impactante revelação dos acervos obtidos, a investigação sobre o universo sonoro tem um enorme potencial na identificação, catalogação e difusão do ambiente sônico em diferentes formações socioculturais. Além disso, esta iniciativa ganha relevo, seja pela possibilidade de destaque e recontextualização das experiências sensoriais cotidianas, seja pela importante tarefa de produção de memória sobre os bens do patrimônio cultural sonoro, nas ações de registro, catalogação e difusão.
Ciente deste potencial, o presente Plano de Trabalho propõe ampliar, em âmbito internacional, uma colaboração para a pesquisa na área da Ciência Empírica da Religião, através de um trabalho comparado de registro e análise sonora a partir da captação de áudio ambiental nas linhas fronteiriças de espaços religiosos, confluindo sonoridades rituais e da vida comum – numa interpretação dos efeitos de fronteira entre os domínios do sagrado e do profano.
Contextualizar:
Escolha da UMA (Sul Global, relação de proximidade com Angola, como país em desenvolvimento)
Colaboração histórica com Helmut Renders em GTs/STs (ABHR, ANPTECRE, SOTER) e em reuniões dos grupos de pesquisa (RIMAGO e OBSERVARE)
Contato direto e escuta das demandas da UMA, via políticas institucionais acessadas
Alinhamento da proposta com ações estratégicas da UMA (políticas, cátedras, cursos envolvidos)
Objetivos
Este Plano de Trabalho tem como objetivo geral iniciar um processo duradouro de colaboração internacional, envolvendo duas importantes universidades do Brasil e de Angola (Universidade Federal de Sergipe e Universidade Metodista de Angola). A iniciativa consiste em capacitar grupos de pesquisadores e realizadores dispostos a promover a percepção e catalogação do universo sonoro em torno do fenômeno religioso nos dois países. Consideramos, de partida, os usos dos recursos sonoros como uma importante ferramenta no processo de Educação Patrimonial, essencial nas práticas de interpretação do patrimônio cultural. Em paralelo, propõe também ampliar a disponibilização de captações diretas e trilhas fonográficas de ambientação e paisagens sonoras a partir de arquivos de áudio para fruição e download gratuito em plataformas fonográficas digitais especializadas, com um impacto direto na produção de memória sônica dos dois países.
Inserir ações diretamente relacionadas a demandas da UMA
Possibilidade de colaboração a longo prazo
Internacionalização efetiva e duradoura do PPGCR
Metodologia
A metodologia aplicada envolve as seguintes etapas:
1. uma abordagem inicial de alinhamento de expectativas dos dois centros de pesquisa;
2. pré-produção: a construção conjunta de uma fundamentação de cunho teórico-conceitual comum, alinhando tradições de pesquisa e demandas específicas de cada uma das instituições envolvidas (exame de bibliografia especializada no campo da produção fonográfica, das paisagens sonoras e das técnicas de edição de som);
3. produção: execução efetiva das práticas de trabalho (identificação, mapeamento, imersão ambiental, escuta ativa gravações em campo);
4. pós-produção: catalogação (decupagem e indexação, descrevendo termos de busca evidentes e sugeridos no universo de sons gravados em cada tomada), edição e difusão/publicação dos arquivos sonoros;
5. em paralelo, o trabalho de natureza etnológica também deve se realizar, numa escuta mais sensível e comparada dos produtos registrados. Ocorre com a análise dos fluxos sonoros a partir da experiência do tempo (sequência e duração) e do registro no espaço (situação e deslocamento em mapas sonoros);
6. a manutenção de uma rede interinstitucional e colaborativa de pesquisa em memória sônica, que permita, a através de plataformas na rede mundial de computadores, aproximar e dar visibilidade global às iniciativas continuadas de produção envolvendo as duas universidades.
Vale ressaltar que a percepção do fenômeno religioso o considera a partir de sua totalidade, não se restringindo a credos e sem preferências devocionais. A proposta investe na valorização da pluralidade cultural e religiosa. A etapa da identificação e mapeamento consiste na seleção prévia de sítios religiosos de diferentes credos, seguida da captação sonora por meio de gravação digital em instantes cerimoniais, pré e/ou pós rituais, de forma estática ou por meio de caminhadas (soundwalks). A análise qualitativa das faixas de áudio busca compreender os elementos da linguagem religiosa imbricados no caos do cotidiano, permitindo não apenas uma acurada percepção dos fatos, mas uma privilegiada experiência estética em torno das diversas linguagens religiosas.
Impactos Esperados
Como se trata de uma ação de mobilidade acadêmica que privilegia a capacitação, toda a operação produtiva privilegia um processo de ensino e aprendizagem versátil e muito benéfico para os acadêmicos vinculados (docentes, estudantes de graduação e pós-graduação). Este Plano de Trabalho também busca integrar ações de pesquisa e extensão, em contato direto com comunidades internacionais, numa metodologia colaborativa. Esperamos, através desta ação de mobilidade acadêmica, ampliar a visibilidade da Universidade Federal de Sergipe e da Universidade Metodista de Angola, como produtoras e difusoras do conhecimento e da memória social, valorizando o registro acústico e a apropriação do patrimônio sonoro de seus entornos, gerando publicações em periódicos dos dois países e estimulando os seus corpos acadêmicos a se apropriarem das novas tecnologias de informação e comunicação.
Além disso, esperamos também contribuir para a construção de uma cultura de paz, fundada no respeito às pluralidades, que surge a partir da informação e do conhecimento das tradições próximas e das mais diversas. Para tanto, os resultados obtidos podem ser apresentados em perfis de redes sociais (Instagram, TikTok, Kwai, por exemplo) e, principalmente, com a disponibilização dos fonogramas e trilhas sonoras captadas em plataformas digitais especializadas, de gratuito, como FreeSound (http://www.freesound.org), SoundCloud (http://www.soundcloud.com) ou parcialmente gratuitas (Spotify, Deezer, Apple Music, Google Podcasts, Amazon Music, Castbox, Overcast, entre outras, sempre sob a autoria dos pesquisadores e realizadores envolvidos, mencionando o projeto.
Referências
Material da UMA
BONFIM, Luís Américo. “A Paisagem Sonora como recurso interpretativo para o lazer e o turismo: Perspectivas e oportunidades”, in GOMES, Christianne Luce; PERINOTTO, André Rianni Costa (org.). Lazer, Turismo e Audiovisual: Tópicos contemporâneos [livro eletrônico]. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2022.
CANEVACCI, Massimo. Sincrétika: Explorações etnográficas sobre artes contemporâneas. 1ª ed. Tradução Helena Coimbra Meneghello. São Paulo: Studio Nobel, 2013.
CARREIRO, Rodrigo (org.). O som do filme: Uma introdução. Curitiba: Editora UFPR; Editora UFPE, 2018.
INGOLD, Tim. Estar vivo: Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2021.
MACHADO, Sylvia Freitas. Processamento auditivo – uma nova abordagem. São Paulo: Plexus Editora, 2003.
MATHIAS, Ronaldo. Antropologia Visual. São Paulo: Nova Alexandria, 2016.
NISEBAUM, Marcio; KÓS, José Ripper; VILAS BOAS, Naylor Barbosa. “O estudo das paisagens sonoras por meio de soundwalks: Estratégias e possibilidades de representação”, in IV enanparq. Porto Alegre, Jul/2016.
RIBEIRO, José da Silva. “Notas para um debate em Antropologia Visual.” Revista Mackenzie Educação, Arte e História da Cultura, ano 3/4, no 3/4, pp. 45-67. São Paulo: PPGEAHC/ Mackenzie, 2003.
SCHAFER, R. Murray. O ouvido pensante. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
Cronograma/Fluxograma de Atividades
1. uma abordagem inicial de alinhamento de expectativas dos dois centros de pesquisa;
2. pré-produção
3. produção
4. pós-produção
5. análise
6. manutenção da rede interinstitucional e colaborativa de pesquisa.